A chegada repentina do Freedom 250 Grand Prix of Washington D.C. ao calendário da Fórmula Indy tem aquele ar clássico de anúncio que empolga primeiro e explica depois. É barulho, expectativa e, por enquanto, mais perguntas do que respostas. Mas, aos poucos, os bastidores começam a ganhar forma — e o quadro mistura ousadia comercial, estratégia política e um certo improviso típico de quem quer ocupar espaço no mapa a qualquer custo.
De cara, um balde de água fria para quem sonhava com continuidade: a prova será evento único. A etapa está marcada para os dias 21 a 23 de agosto e nasce atrelada às comemorações do aniversário de 250 anos dos Estados Unidos. Não haverá “Freedom 251” ou sequência em 2027. Oficialmente, é one-off. E isso contrasta com um desejo antigo do campeonato: recuperar presença fixa na Costa Leste. A própria Honda, fornecedora de motores, reforçou a importância estratégica da região e declarou apoio aos esforços da categoria para se aproximar do público local.
Mesmo sendo pontual, a corrida pode plantar sementes. A Indy firmou parceria com a Monumental Sports & Entertainment (MSE), que será responsável por marketing e vendas de patrocínio do evento. Não é qualquer empresa: o grupo controla franquias como Washington Wizards (NBA), Mystics (WNBA) e Capitals (NHL), além de arenas e forte penetração regional. Traduzindo: know-how local e capacidade de ativação comercial — algo vital para quem quer transformar uma aposta isolada em algo recorrente no futuro. Considerando o histórico da Indy em circuitos de rua montados ao redor de estádios e centros esportivos, a aliança parece estratégica demais para acabar em apenas um fim de semana.
No aspecto técnico, o traçado ainda não foi divulgado, mas o desenho deve contar com a experiência de Tony Cotman, ex-chefe de mecânicos da categoria e hoje especialista em criação de circuitos urbanos. Embora o anúncio tenha soado repentino, o projeto já vinha sendo trabalhado há cerca de seis meses. Ou seja: não foi uma ideia tirada da cartola de última hora, mas um plano silencioso que amadureceu nos bastidores antes de receber sinal verde político.
A programação de pista também segue indefinida. A categoria quer um evento encorpado e já sondou IMSA (Mazda MX-5 Cup) e até os Stadium Super Trucks, de Robby Gordon, para compor o espetáculo. Curiosamente, a Indy NXT — que seria escolha natural — está fora “neste momento”. A Radical Cup North America surge como candidata. Nada fechado. Mais um capítulo na lista de interrogações.
Se dentro da pista faltam confirmações, fora dela a conta já chegou. As equipes montaram seus orçamentos para 17 corridas, e a inclusão de uma 18ª etapa pesa no caixa. A Penske Entertainment deve ampliar os pagamentos do Leaders Circle para ajudar, mas os times estimam um custo extra médio de cerca de R$ 1,4 milhão por carro (US$ 250 mil) para cobrir logística, pessoal e operação. Há ainda as dúvidas sobre quilometragem adicional de motor e jogos extras de pneus. Cada leasing anual de motores custa aproximadamente R$ 8,1 milhões (US$ 1,45 milhão), incluindo quatro unidades V6 biturbo de 2,2 litros. A expectativa é que Chevrolet e Honda absorvam o desgaste extra sem reajuste, mas isso ainda não foi formalizado. Dependendo dessas respostas, a conta pode subir.
O curioso é que, apesar do risco financeiro, o humor do paddock é surpreendentemente positivo. Donos de equipe relatam forte interesse de patrocinadores, atraídos pelo caráter patriótico e pela vitrine política e corporativa da capital americana. Um dirigente, sob anonimato, resumiu o clima: “Meu telefone não parou desde o anúncio. Pode acabar sendo um evento em que a gente sai no lucro”.
No fim das contas, o Freedom 250 nasce como contradição. É temporário, mas estratégico. Caro, mas potencialmente lucrativo. Incerto, mas cheio de aliados poderosos. Talvez não seja a corrida mais estável do calendário, Mas, se funcionar, pode ser justamente a mais influente.
Fonte: Marshall Pruett / Racer.com