
Foto: Penske Entertaiment: Joe Skibinski
De calendário a transmissões, acordo abre espaço para transformações profundas no produto da categoria.
A aquisição de 33% da Penske Entertainment pela Fox Corporation não é apenas um negócio financeiro. Ela pode redefinir o modo como a Fórmula Indy se apresenta ao público dentro e fora das pistas. A emissora, que já mostrou impacto imediato ao elevar em 30% a audiência média em 2025 e registrar recorde em 17 anos na Indy 500 (7 milhões de espectadores nos EUA), agora tem incentivo direto para investir ainda mais na categoria.
Mas o que, na prática, pode mudar nos próximos anos?
1. Novo calendário, novos horários
Uma das primeiras áreas onde a Fox deve atuar é no reposicionamento estratégico do calendário. Hoje, a IndyCar sofre por dividir audiência com a NFL, a NASCAR e até a Fórmula 1 em algumas datas. A Fox pode influenciar:
- Corridas em dias de semana (quintas ou sextas à noite), criando eventos de TV sem concorrência direta.
- Mudança da abertura de temporada, possivelmente encaixada entre os jogos decisivos da NFL e o Super Bowl — janela já explorada pela NASCAR com o Clash em Los Angeles.
- Parcerias de fim de semana: Fox transmite a NASCAR e poderia construir eventos conjuntos, com IndyCar correndo no sábado e NASCAR no domingo, multiplicando o público.
2. Transmissões mais longas e dedicadas
Com participação acionária, a Fox passa a ter interesse em maximizar exposição da IndyCar. Isso pode significar:
- Pré e pós-corrida robustos em TV aberta e no FS1, no modelo da NFL Sunday.
- Talk shows semanais dedicados à IndyCar, criando narrativas e aumentando engajamento entre corridas.
- Ampliação das janelas de transmissão, reduzindo cortes para comerciais que tanto incomodaram fãs em 2025.
- Câmeras on-board em todos os carros, algo que depende de investimento, mas que pode se tornar realidade sob a lógica de espetáculo total.
3. Crescimento digital e streaming
Fox já opera o Tubi e aposta em distribuição multiplataforma. Espera-se:
- Mais conteúdos exclusivos no app da Fox Sports, com acesso a bastidores e séries documentais.
- Produção de material sob demanda, seguindo o modelo de Drive to Survive, mas adaptado ao perfil da IndyCar.
- Integração com fantasy games e experiências interativas, algo que a própria Penske Entertainment vinha testando com seu novo app.
4. Identidade mais clara e entretenimento em primeiro plano
A crítica de anos à IndyCar é a dificuldade em se posicionar: seria uma categoria de pura competição, um palco de ídolos acessíveis ou um espetáculo de velocidade? A Fox deve pressionar por uma identidade mais próxima ao entretenimento de massa, transformando corridas em “grandes eventos” — com ativações fora da pista, experiências no estilo fan fest e shows paralelos.
5. Impacto no paddock e nos pilotos
Mais exposição significa maior valorização de imagem. Isso pode atrair:
- Mais patrocinadores para equipes médias e pequenas.
- Maior construção de narrativas individuais, algo que beneficia pilotos como Pato O’Ward, Alex Palou e Colton Herta, com potencial para se tornarem estrelas reconhecidas fora do nicho.
- Internacionalização do produto, reforçada pela base de fãs latino-americanos e pelo interesse europeu em categorias de monopostos.
6. O dilema da autenticidade
O ponto de atenção será como a Fox equilibrará entretenimento e essência esportiva. Para os puristas, o risco é a categoria se transformar em algo “espetacularizado demais”, como já ocorreu em outras modalidades. Mas, diante da estagnação de público em vários eventos, essa pode ser a única saída para manter a IndyCar relevante frente à F1 e NASCAR.
A Fox pode ser o motor de transformação que Roger Penske sozinho não conseguiu acionar. Mas será se essa parceria priorizar apenas números e espetáculo ou se também conseguirá preservar o DNA de competição pura que sempre fez a IndyCar única. O equilíbrio — mais do que nunca — será o verdadeiro desafio.