Foto: Penske Entertainment - Chris Jones
Palou lidera a manhã, Armstrong puxa a tarde, mas cronômetros enganam; terça-feira deve mostrar o cenário real da Fórmula Indy
Sebring nunca mente. Mas também raramente conta a história completa.
Na antiga base militar da Flórida — casa das tradicionais 12 Horas de Sebring — a Fórmula Indy abriu oficialmente sua pré-temporada com o primeiro teste coletivo de 2026. Não no traçado clássico de endurance, e sim no circuito curto, que elimina as retas principais e concentra justamente o que as equipes querem: remendos, ondulações e irregularidades suficientes para sacudir qualquer acerto de suspensão. É aí que mora o valor do teste.
Desde a introdução das corridas de rua, ainda nos anos 1980, Sebring virou a referência quase obrigatória do calendário de preparação. As antigas taxiways e pistas de pouso da década de 1940 envelheceram mal — felizmente para os engenheiros. O piso castigado simula, como poucos lugares permanentes conseguem, o comportamento de pistas como St. Petersburg e Long Beach. Testar nelas é impossível. Então Sebring é o mais perto disso.
Teste é teste. E Sebring, tradicionalmente, é o lugar perfeito para lembrar isso a todo mundo que insiste em transformar cada volta rápida em profecia de campeonato.
O primeiro dia de atividades da Fórmula Indy no circuito curto de Sebring entregou dois líderes diferentes — Alex Palou pela manhã e Marcus Armstrong à tarde —, mas, na prática, muito mais coleta de dados do que qualquer leitura definitiva de performance.
Com 12 carros no turno matinal, temperaturas mais amenas e pista ainda “verde”, Palou colocou a Chip Ganassi Racing no topo. Depois do almoço, sob calor mais forte e asfalto mais escorregadio, foi a vez da afiliada técnica da Ganassi, a Meyer Shank Racing, aparecer com Armstrong como o mais rápido entre 11 pilotos.
No consolidado do dia, porém, os tempos da manhã seguiram como referência. Palou, Felix Rosenqvist e Rinus VeeKay formaram o trio mais veloz absoluto. Armstrong, mesmo liderando seu grupo, terminou com a quinta melhor volta geral.
Logo atrás vieram Kyle Kirkwood, Pato O’Ward, Scott McLaughlin, da Penske, e Sting Ray Robb, que passou mais tempo no topo da tabela do que qualquer outro piloto durante a sessão vespertina — sinal de que a Juncos Hollinger pode ter encontrado algo interessante no acerto básico.
Mas qualquer análise mais empolgada esbarra em um detalhe fundamental: os pneus bagunçam completamente o jogo.
A Firestone disponibilizou quatro jogos de compostos primários por carro — dois da especificação 2025 e dois do novo padrão 2026, que será usado já em St. Petersburg. Quase todas as equipes planejaram “gastar” os pneus antigos na segunda-feira e guardar os novos para terça.
Traduzindo: segunda não é parâmetro confiável. A tendência é que o segundo dia, com os compostos 2026, entregue tempos mais próximos da realidade competitiva do início da temporada.
O formato do teste também ajuda a embaralhar a leitura. Quem andou de manhã retorna à pista na tarde seguinte, e vice-versa, garantindo que todos enfrentem tanto condições mais frias quanto o calor pesado da Flórida.
Fora da pista, algumas ausências e testes chamaram atenção. A PREMA Racing simplesmente não veio e não deve estar nas próximas etapas iniciais. A tendência é ausência em St. Petersburg, Phoenix, Arlington e possivelmente Barber, com um eventual retorno apenas em Long Beach, talvez com um único carro. Há negociações com compradores interessados na operação, mas nada fechado. No cenário atual, a categoria deve largar com 25 carros no grid.
A Ed Carpenter Racing pulou a segunda, mas deve andar na terça, possivelmente com Hunter McElrea, nome experiente na Indy NXT e IMSA LMP2, cotado para funções de teste ou reserva.
Entre os detalhes técnicos, a Ganassi aproveitou para rodar com um sistema a laser de medição de altura do carro na traseira do #10 de Palou — típico equipamento de coleta de dados pesada. Em Sebring, o cronômetro importa menos do que a telemetria.
Na Dale Coyne Racing, Romain Grosjean voltou a acelerar um Indy após mais de um ano afastado da categoria. Ainda não há confirmação de programa completo, mas o teste reacende a possibilidade de um acordo para a temporada.
O francês, porém, ainda não tem contrato fechado para a temporada completa. As conversas continuam. Ele evitou entrevistas no paddock, algo compreensível diante da indefinição. A expectativa geral é de que dispute ao menos parte do campeonato — talvez o calendário inteiro. Conor Daly também aparece como possibilidade. Com St. Pete se aproximando, o relógio aperta.
Outro ponto curioso foi o visual. Várias equipes mostraram pinturas novas, enquanto a Meyer Shank segurou sua revelação. E há uma coincidência estética: muitos carros adotaram combinações de branco, verde e cinza, o que pode confundir o público — e até narradores — nas primeiras corridas.
Quem também falou foi o próprio Palou, com a tranquilidade de quem já sabe como funcionam esses dias longos de pré-temporada.
O espanhol contou que foi bom voltar ao carro depois de meses longe e destacou como o Indy é mais agressivo comparado ao protótipo GTP que vinha guiando. O foco, segundo ele, foi testar o máximo possível de ideias de acerto acumuladas na offseason para entender “o que funciona e o que não funciona”.
Sebring, explicou, ajuda por simular pistas de rua — pouco grip e muitos bumps —, mas com um alerta: não dá para acertar o carro pensando só ali. O objetivo é levar aprendizados que sirvam para St. Petersburg e os demais circuitos mistos e urbanos.
Palou também comentou as possíveis mudanças estratégicas, como a obrigação de usar pneus alternativos mais vezes em corridas de rua, algo que pode deixar as provas mais imprevisíveis. Para ele, simples: se a regra é igual para todos, vence quem se adaptar melhor.
E, em tom leve, ainda brincou com seu novo boné amarelo antes de dizer que está ansioso para voltar a correr pra valer.
No fim das contas, o primeiro dia em Sebring cumpriu exatamente o papel esperado: muito trabalho invisível, pouca conclusão definitiva. Se alguém quiser tirar campeões de fevereiro, é melhor esperar.
Terça-feira, com pneus novos e condições mais comparáveis, deve contar uma história bem mais honesta.
🕘 Tempos agregados do dia – Fórmula Indy
| Posição | Carro | Piloto | Equipe | Chassi/Motor/Pneu | Tempo | Sessão | Período |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 10 | Alex Palou | Chip Ganassi Racing | Dallara/Honda/Firestone | 52s626 | Terminou | Manhã |
| 2 | 60 | Felix Rosenqvist | Meyer Shank Racing | Dallara/Honda/Firestone | 52s650 | Terminou | Manhã |
| 3 | 76 | Rinus VeeKay | Juncos Hollinger Racing | Dallara/Chevrolet/Firestone | 52s756 | Terminou | Manhã |
| 4 | 2 | Josef Newgarden | Team Penske | Dallara/Chevrolet/Firestone | 52s846 | Terminou | Manhã |
| 5 | 66 | Marcus Armstrong | Meyer Shank Racing | Dallara/Honda/Firestone | 52s847 | Terminou | Tarde |
| 6 | 27 | Kyle Kirkwood | Andretti Global | Dallara/Honda/Firestone | 52s918 | Terminou | Manhã |
| 7 | 5 | Pato O’Ward | Arrow McLaren | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s018 | Terminou | Manhã |
| 8 | 3 | Scott McLaughlin | Team Penske | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s039 | Terminou | Tarde |
| 9 | 77 | Sting Ray Robb | Juncos Hollinger Racing | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s050 | Terminou | Tarde |
| 10 | 8 | Kyffin Simpson | Chip Ganassi Racing | Dallara/Honda/Firestone | 53s135 | Terminou | Tarde |
| 11 | 28 | Marcus Ericsson | Andretti Global | Dallara/Honda/Firestone | 53s165 | Terminou | Manhã |
| 12 | 45 | Louis Foster | Rahal Letterman Lanigan | Dallara/Honda/Firestone | 53s167 | Terminou | Tarde |
| 13 | 6 | Nolan Siegel | Arrow McLaren | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s172 | Terminou | Tarde |
| 14 | 9 | Scott Dixon | Chip Ganassi Racing | Dallara/Honda/Firestone | 53s210 | Terminou | Tarde |
| 15 | 15 | Graham Rahal | Rahal Letterman Lanigan | Dallara/Honda/Firestone | 53s325 | Terminou | Manhã |
| 16 | 14 | Santino Ferrucci | A.J. Foyt Racing | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s337 | Terminou | Tarde |
| 17 | 26 | Will Power | Andretti Global | Dallara/Honda/Firestone | 53s337 | Terminou | Tarde |
| 18 | 19 | Dennis Hauger | Meyer Shank Racing | Dallara/Honda/Firestone | 53s413 | Terminou | Tarde |
| 19 | 12 | David Malukas | Team Penske | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s442 | Terminou | Manhã |
| 20 | 4 | Caio Collet | A.J. Foyt Racing | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s656 | Terminou | Manhã |
| 21 | 7 | Christian Lundgaard | Rahal Letterman Lanigan | Dallara/Chevrolet/Firestone | 53s769 | Terminou | Tarde |
| 22 | 18 | Romain Grosjean | Juncos Hollinger Racing | Dallara/Honda/Firestone | 53s798 | Terminou | Manhã |
| 23 | 47 | Mick Schumacher | Rahal Letterman Lanigan | Dallara/Honda/Firestone | 54s269 | Terminou | Manhã |
