Foto: Penske Entertainment - James Black
Brasileiro detalha adaptação ao carro da categoria, testes em Sebring, parceria com Beto Monteiro e admite que 2026 é ano de aprendizado antes de mirar a Fórmula Indy
A caminhada de Nicholas Monteiro rumo à Fórmula Indy não começou com promessas grandiosas nem discursos de favoritismo. Pelo contrário. O brasileiro chega à temporada 2026 da Indy NXT com um discurso raro entre jovens talentos, mais pé no chão do que eufórico, mais técnico do que emocional. Integrado ao projeto da AJ Foyt Racing em parceria com a HMD, ele prefere falar em construção, adaptação e processo. Para quem observa de fora, pode soar conservador. Para quem conhece o caminho até a Indy, soa apenas realista.
Logo no início da conversa com o Mundo Indy, Nick deixou clara a visão que tem sobre a formação nos Estados Unidos. Para ele, o sistema americano prepara melhor o piloto para o salto final.
“Eu acho que essa escolinha que eles têm aqui é uma das melhores que existem. Na minha opinião, é a melhor do mundo. Você vai subindo degrau por degrau, muda pneu, muda potência, muda downforce, mas não é aquele salto absurdo. O piloto vai se acostumando mais rápido.”
Segundo o brasileiro, essa progressão gradual é o que faz diferença. Enquanto na Europa cada categoria exige praticamente reaprender tudo do zero, o Road to Indy mantém uma linha lógica de evolução técnica.
“Da USF Junior para a 2000 muda pouco, depois você cresce mais um pouco na Pro, e quando chega na NXT você já entende como o carro reage. Fica tudo mais natural.”
Natural até certo ponto. O salto final ainda impõe respeito.
“O pulo para a NXT já é um baita salto. Sai de um Tatuus e vai para um Dallara, tem push to pass, barras ajustáveis, transmissão maior, rádio aberto. É muito mais profissional. Você já sente que está perto da Indy.”
Parte dessa adaptação começou ainda em 2025, quando fez a etapa isolada de Portland. A experiência, segundo ele, foi determinante para encarar a temporada completa com menos surpresa.
“A gente caiu de paraquedas lá, mas foi essencial. Eu aprendi como funciona o qualifying, o uso do push to pass, a dinâmica do fim de semana. Deu uma base enorme.”
Dividir o box com Caio Collet também ajudou. O compatriota, já adaptado ao carro, abriu dados e dividiu conhecimento.
“O Caio me passou vídeo, telemetria, dicas de traçado. Ter outro brasileiro ali facilitou muito.”
Fora da pista, outro nome tem peso importante no projeto. Apesar do sobrenome, Beto Monteiro não é parente, mas atua como uma espécie de tutor esportivo.
“Todo mundo pergunta se ele é meu pai”, contou rindo. “Mas ele é meu coach. Telemetria, posicionamento de pista, estratégia. No fim de semana ele cuida de mim como se fosse um pai de corrida mesmo.”
Nos testes de pré-temporada em Sebring, pista conhecida pelo asfalto irregular, Nick começou a sentir de fato o ritmo do novo carro. E, curiosamente, elogiou justamente o que mais assusta os novatos.
“Sebring é toda quebrada, cheia de bump, mas é perfeita pra simular circuito de rua. Se o carro funciona lá, funciona em qualquer lugar. Você testa amortecedor, consumo, estabilidade. É um treino bem real.”
O desempenho animou. “De manhã a gente estava sempre entre os quatro mais rápidos. O carro respondeu bem, o engenheiro é bom, a equipe é forte. Dá pra ir competitivo.”
A gestão de pneus também entrou na conversa. Diferente de outras categorias, a Indy NXT trabalha com poucos jogos novos, o que exige mais leitura de corrida do que ataque constante.
“O Firestone tem o pico logo nas primeiras voltas. Se você errar ali, perdeu a chance. Então precisa ser preciso. Não dá pra desperdiçar.”
Se em circuitos mistos o desafio é técnico, nos ovais a exigência é mental. E, ao contrário do que muita gente imagina, é justamente ali que ele se sente mais confortável.
“Eu amo oval. É pista de cabeça. Você fica o tempo inteiro concentrado, fazendo pequenas correções. Eu gosto dessa adrenalina.”
Dentro da Foyt, o plano é claro e sem atalhos. Nada de pressão imediata por resultados milagrosos.
“A ideia é dois anos de NXT. Primeiro ano de adaptação minha e da equipe. Depois pensar em testes de IndyCar. É um processo.”
No momento de falar de quem sustenta o projeto fora das pistas, Nick fez questão de agradecer nominalmente os parceiros que viabilizam sua caminhada rumo à Fórmula Indy e reforçou o orgulho de levar marcas brasileiras para o grid americano.
“Estou com três novos patrocinadores: a EQR, a PegCard e a World Sea. É muito legal levar marcas brasileiras indo para os EUA.” O piloto também reconheceu o suporte do staff e das pessoas próximas que participam diretamente do seu desenvolvimento. “Valeu a todo mundo que assistiu, aos meus patrocinadores, ao Beto, ao meu treinador Fabinho Atier, a Andrea, e ao meu pai.”
Essa palavra, processo, apareceu várias vezes durante a entrevista. Talvez seja o melhor resumo do momento. Em vez de vender sonho pronto, Nick parece entender que a base ainda está sendo construída. E na Indy, a história mostra que quem tenta pular etapas normalmente volta alguns degraus depois.
O discurso pode não ser o mais chamativo, mas combina mais com a realidade do paddock. Antes de falar em Fórmula Indy, o trabalho é mais simples e mais duro ao mesmo tempo. Aprender o carro, virar voltas consistentes, errar menos que os outros e sobreviver a uma categoria que não costuma dar desconto para novato. Se fizer isso bem feito, o resto acontece naturalmente.