Foto: Penske Entertainment - Chris Jones
Brasileiro fecha o último dia próximo do top-5, adapta-se rápido ao carro da AJ Foyt e deixa sinais positivos antes da estreia em St. Petersburg
Os dois dias de testes coletivos da Fórmula Indy em Sebring serviram menos para definir favoritos e mais para entender o ponto de partida de cada equipe. Em meio a nomes consagrados como Alex Palou, Scott Dixon, Will Power e Kyle Kirkwood, um brasileiro tratou de fazer seu trabalho em silêncio — e com eficiência. Caio Collet saiu da Flórida com um dos desempenhos mais consistentes do pelotão intermediário e com tempo suficiente para chamar atenção do paddock.
No fechamento das atividades, no último bloco da tarde de terça-feira, Collet colocou o carro #4 da AJ Foyt Racing na sexta posição geral, registrando 52s891 no traçado curto de aproximadamente 2,6 km do antigo aeródromo militar de Sebring. Ficou à frente de pilotos experientes como Josef Newgarden e Pato O’Ward, além de terminar a menos de meio segundo do melhor tempo do período, marcado por Kyle Kirkwood (52s479).
Pode parecer uma diferença pequena — e é mesmo. Em Sebring, onde o asfalto irregular, as ondulações e a aderência limitada simulam bem as pistas de rua, qualquer décimo já separa vários carros. Estar colado no grupo da frente, ainda mais em teste com quilometragem limitada e programas diferentes entre as equipes, é um indicativo técnico relevante.
O contexto ajuda a valorizar o resultado. As equipes trabalharam com apenas quatro jogos de pneus Firestone primários por carro, divididos entre a especificação 2025 e a nova versão 2026, que demora mais para atingir temperatura ideal. Ou seja: nem todo mundo acelerou nas mesmas condições. Muitos stints foram focados em acerto, simulação de corrida e coleta de dados aerodinâmicos. Cravar volta rápida não era prioridade absoluta.
Mesmo assim, Collet esteve sempre próximo do bloco da frente.
A AJ Foyt Racing, que nos últimos anos figurou mais do meio pro fundo do grid, parece ter dado um passo adiante com a aproximação técnica de parceiros maiores e uma base mais estável de engenharia. Para um estreante, isso faz diferença direta: menos improviso, mais clareza no acerto e mais tempo para o piloto evoluir.
E Sebring não é exatamente um lugar amigável para novatos. O circuito é conhecido no paddock como um “batismo de fogo”: muito bump, carro quicando, traseira escapando o tempo todo e zero margem para erro. Se o piloto se adapta ali, normalmente se adapta em qualquer rua do calendário, como St. Pete, Detroit ou Long Beach.
Dentro desse cenário, Collet mostrou algo que equipes valorizam tanto quanto velocidade: limpeza de trabalho. Sem rodadas, sem incidentes e cumprindo o programa completo. Para quem está começando, completar voltas vale ouro.
Claro, é cedo para criar expectativa exagerada. Teste de pré-temporada engana. Honda liderou praticamente todas as sessões, mas isso não garante nada quando a bandeira verde valer pontos. A própria diferença entre manhã fria e tarde quente mudava completamente a ordem dos tempos.
Mas há uma leitura realista a ser feita: Collet não foi figurante. Ele esteve no ritmo.
Para um brasileiro tentando se firmar em um grid cada vez mais competitivo, começar assim significa largar alguns metros à frente na corrida interna por espaço e respeito. Não é manchete de pole position, mas é exatamente o tipo de desempenho sólido que constrói temporada longa.
Agora, a conversa deixa de ser cronômetro de teste e vira corrida de verdade. A estreia acontece em St. Petersburg, com transmissões no Brasil pela BAND, ESPN4 e Disney+. É lá que o barulho do paddock vira pressão de resultado.
E, sendo bem direto: se Caio Collet repetir o que mostrou em Sebring — consistência, proximidade dos líderes e evolução constante — já estará fazendo mais do que muita gente espera de um novato. Na Fórmula Indy, sobreviver no pelotão da frente é tão importante quanto brilhar.