MONTADORAS NO CENTRO DO JOGO

Foto: Mundo Indy

  • Leonardo Alves
  • 17 de janeiro de 2026
  • 19:30

A possibilidade de charters para fabricantes pode redefinir o papel de Chevrolet e Honda na Fórmula Indy e abrir um novo capítulo para a categoria a partir de 2026.

Entre os vários movimentos estratégicos discutidos nos bastidores da Fórmula Indy, um em especial chama atenção pelo potencial de impacto estrutural: a ideia apresentada por Roger Penske de permitir que as montadoras utilizem charters para se tornarem participantes diretas do campeonato, com programas oficiais de um carro. É uma proposta que resgata ecos do passado, especialmente dos tempos áureos da era CART, quando vínculos de fábrica eram parte essencial do DNA da categoria e marcas como Buick, Chevrolet, Ford, Honda, Mercedes e Toyota não apenas forneciam motores, mas sustentavam projetos esportivos inteiros.

Ainda há muitas zonas cinzentas nesse plano. Não está claro se esses charters obrigariam Chevrolet ou Honda a criarem equipes próprias, totalmente independentes, ou se seria permitido algo mais pragmático e já conhecido do paddock, como terceirizar a operação para equipes existentes, modelo semelhante ao que as próprias montadoras utilizam hoje em programas de testes de motores ou sistemas híbridos. Seja qual for o formato, o simples fato de essa possibilidade estar na mesa já representa uma ruptura importante com a lógica tradicional da Fórmula Indy.

Esse cenário ganha força caso Chevrolet e Honda renovem seus contratos além de 2026, atravessem o ano de transição de 2027 com os motores atuais e estejam diretamente envolvidas no desenvolvimento da nova geração de propulsores V6 biturbo de 2,4 litros prevista para 2028, possivelmente ao lado de novos fabricantes. A concessão de charters, nesse contexto, poderia não apenas solidificar a permanência das montadoras atuais, mas até ampliar o grid, algo que contrasta com discussões paralelas dentro da própria Penske Entertainment sobre uma eventual redução do número de carros em tempo integral.

Há também um componente de marketing e posicionamento que não pode ser ignorado. Historicamente, quando as montadoras se sentiram verdadeiramente engajadas e valorizadas, não economizaram recursos para promover sua presença na Fórmula Indy. O reflexo disso foi visto em audiências maiores, maior visibilidade nacional e uma categoria mais relevante fora do paddock. Nos últimos anos, esse envolvimento diminuiu, muito por falta de incentivos claros para que as fabricantes enxergassem retorno além do aspecto técnico.

É evidente que oferecer charters não é uma solução mágica capaz de destravar automaticamente investimentos de oito dígitos em publicidade e ativação de marca. Ainda assim, trata-se de um primeiro passo concreto para reintegrar as montadoras ao núcleo decisório da categoria, deixando de tratá-las como meras fornecedoras e passando a vê-las como parceiras estratégicas no processo de reconstrução da Fórmula Indy. Em um momento em que a série busca relevância, estabilidade e crescimento sustentável, essa mudança de mentalidade pode ser tão importante quanto qualquer alteração técnica ou esportiva.

No sexto ano da era Penske, fica cada vez mais claro que os bastidores e o modelo de negócios estão ditando o ritmo das transformações. A nova temporada marcada para começar em 1º de março, o desafio agora é transformar conceitos, promessas e potenciais — especialmente com a Fox como sócia — em resultados mensuráveis. Manter Chevrolet e Honda é o mínimo esperado, e, pela primeira vez em muito tempo, elas parecem ter bons motivos para ficar.

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