INDY MODERNIZA VISTORIAS TÉCNICAS E PREPARA TERRENO PARA A ERA IR28

  • Leonardo Alves
  • 9 de janeiro de 2026
  • 14:33

Novo caminhão de inspeção e investimentos em escaneamento a laser apontam para uma mudança estrutural na forma como a categoria vai controlar regras e componentes a partir de 2028

A Fórmula Indy deu mais um passo importante rumo à modernização de seus processos técnicos ao adquirir um novo caminhão de inspeção, que passará a ser operado pelo recém-criado Independent Officiating Board (IOB) e pela equipe de conformidade regulatória da IndyCar Officiating Incorporated (IOI), ambas financiadas pela Penske Entertainment. A novidade estreia já na temporada de 2026 e simboliza uma separação mais clara entre a promotora da categoria e o corpo responsável pela fiscalização.

Segundo o presidente da IndyCar, Doug Boles, o caminhão é totalmente novo e acompanhará o campeonato ao longo do ano, sendo transportado pela própria IndyCar, mas operado integralmente pelo IOB. “Ele continuará sendo propriedade da categoria, mas será completamente gerenciado pelo IOB. Já era algo que estava nos nossos planos antes mesmo da criação do conselho independente, então é positivo começar essa nova fase já com uma estrutura nova”, explicou.

No curto prazo, as ferramentas de inspeção não devem sofrer grandes mudanças em 2026 e 2027, já que o atual Dallara DW12 entra em suas últimas temporadas de uso. O grande salto tecnológico, porém, está planejado para a chegada do Dallara IR28, em 2028. A ideia é incorporar de forma definitiva o escaneamento a laser, tecnologia já comum em categorias como NASCAR e IMSA, para verificar carroceria, dimensões e conformidade de componentes com extrema precisão.

Boles vê nesse ponto uma das maiores oportunidades de evolução da fiscalização técnica. Ele lembra que, após as 500 Milhas de Indianápolis, quatro carros — mais especificamente os tubos e estruturas de impacto — foram apreendidos não apenas por suspeitas regulatórias, mas como parte de um amplo processo de aprendizado. Esses componentes foram comparados entre si, confrontados com os arquivos CAD da Dallara e também com um conjunto totalmente novo, recém-fabricado. O objetivo era entender a confiabilidade estrutural e as variações existentes entre diferentes gerações do DW12.

Esse trabalho revelou um problema conhecido, mas difícil de resolver: a heterogeneidade do DW12. Desde sua introdução em 2012, o chassi passou por inúmeras atualizações de segurança, especialmente após acidentes mais severos nos primeiros anos. Algumas dessas melhorias foram incorporadas diretamente no processo de fabricação de novos chassis, enquanto outras foram aplicadas posteriormente em carros mais antigos, criando diferenças estruturais sutis, mas relevantes, quando analisadas por escaneamento a laser.

Como resultado, um DW12 fabricado em 2014, já com todas as atualizações “embutidas”, pode apresentar leituras diferentes de um chassi de 2012 ou 2013 que recebeu reforços colados posteriormente. Com equipes ainda utilizando versões antigas e atualizadas do carro, a IndyCar entende que não é possível, neste momento, impor regras rígidas de escaneamento para todo o grid sem correr o risco de injustiças técnicas.

Ainda assim, o uso do escaneamento tem sido valioso como ferramenta de aprendizado. A IndyCar realizou medições após etapas como Portland e Nashville, identificando áreas onde alguns carros apresentavam comportamentos fora do padrão esperado. “Mesmo sem aplicar punições, o escaneamento nos ajuda a enxergar onde alguém pode estar explorando brechas do regulamento”, destacou Boles. A estratégia, segundo ele, é investir continuamente na tecnologia entre agora e 2028, acumulando dados suficientes para que, com o IR28, seja possível definir claramente o “envelope” dimensional que todos os carros deverão respeitar.

Outro ponto sensível revelado por esse processo envolve o controle de qualidade da própria Dallara. Equipes relataram à RACER situações em que compraram múltiplas unidades de um mesmo componente e encontraram variações significativas entre elas, a ponto de algumas peças serem apontadas como fora de tolerância durante o escaneamento — não por manipulação, mas por irregularidades de fabricação que passaram pelo controle de qualidade.

Esse problema também está no radar para 2028. A promessa é que o IR28 venha acompanhado de um padrão de repetibilidade muito mais rigoroso, permitindo que cada peça produzida seja virtualmente idêntica à outra. Para Boles, isso é fundamental: quando uma equipe compra um componente oficial, precisa ter a certeza de que ele estará 100% dentro das especificações. Caso contrário, o sistema perde credibilidade.

A expectativa é que, com componentes mais padronizados e um chassi projetado já pensando no escaneamento como ferramenta regulatória, o IOB possa, no futuro, assumir completamente o uso da tecnologia para fiscalização ativa. Quando isso acontecer, a decisão será do próprio conselho independente — e não da IndyCar enquanto promotora.

Mais do que um novo caminhão ou novas máquinas, o movimento revela algo maior: a Fórmula Indy começa, agora de forma concreta, a preparar o terreno regulatório e técnico para a maior mudança de sua história recente, buscando transparência, igualdade técnica e ferramentas modernas para sustentar o próximo ciclo da categoria a partir de 2028.

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